Você trataria a pneumonia do seu filho com água de rosas?
15 Janeiro | 2020

Por que ainda somos a família que educa o motorista do aplicativo?

Há algumas semanas uma menina pegou um carro de aplicativo e durante sua viagem, apesar de demonstrar claramente que não queria as investidas do motorista, passou por uma situação de assédio sexual. Quando vi o vídeo, disse a uma amiga numa rede social: quanto você quer apostar que ele vai colocar a culpa no comprimento do short dela?

Ele não só colocou a culpa no comprimento do short, como também culpou a forma como ela estava sentada, entre outros absurdos, refletindo o machismo cultural e estrutural que faz parte da nossa sociedade, enrustido na piadinha de todos os dias, até a violência declarada como neste caso.

Claro, fiquei revoltada e até enjoada quando vi o vídeo e imaginei minha filha de 16 anos naquela situação! Mas, outra pergunta veio à minha mente: o que estou fazendo para que meu filho de 9 anos não seja o homem do aplicativo?

Sim pessoal, nossos filhos não nascem machistas e não existe trabalho científico sério e ético que sustente que a testosterona é a causa deste tipo de comportamento. Quero dizer que educamos nossos filhos para isso, em relações abusivas que existem em número muito maior e muito mais próximo de nós que imaginamos e às vezes estamos numa sem nem percebermos. E quando falo em relação abusiva muitas vezes não é aquela onde existe violência declarada com luta física, e sim aquela velada, onde o pai decide que roupa a mãe usa (maquiada pela crença que ele me ama e tem ciúmes de mim), onde pais e mães deixam o irmão decidir a roupa da irmã, onde as liberdades de uma mulher são retiradas aos poucos em nome do amor. E você acha que seu filho não está vendo nada? Na verdade, ele esta aprendendo um modelo de se relacionar com mulheres onde há objetificação dela, no dia a dia.

Quando falamos de modelos de masculinidades, falamos disto.  Ser homem não é ser o “macho alfa de plantão e pronto para pegar todas”, como por muitos séculos foi ensinado.  Que bom que percebemos isto, pois o machismo não impacta somente mulheres.  Desde, não ter os devidos cuidados com a saúde até a exposição à violência nas ruas que aumenta quando criamos o menino para não levar desaforo para casa. Aprendemos a relacionar autocuidado com o corpo e sentimentos com fraqueza, entre outros.

Na ânsia de cuidar para que nossos meninos sejam “machos de verdade” e não seres humanos com sentimentos e necessidades, nos perdemos no caminho. Não podemos mais negar que tenhamos de fazer diferente. A grande questão é que para fazermos diferente precisamos aprender a lidar com as nossas próprias dificuldades e sentimentos e não fomos treinados para isto.

Nossa geração (tenho 44 anos) e as gerações anteriores lidaram com sentimentos de forma prática: simplesmente os negava e tocava o barco. Se não consigo lidar com meus próprios sentimentos e dificuldades, como vou conseguir ajudar meus filhos, netos, sobrinhos, alunos?

Esta é a grande sacada deste século e nossa principal meta enquanto famílias e cuidadores. E para esta tarefa temos de estar dispostos a ter humildade de entendermos a necessidade da mudança para voltarmos a ser alunos e aprender por nossos filhos.